Páginas

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Hino à Juventude Perdida (poema traduzido)

Mais um poema de guerra de Wilfred Owen (1893-1918), soldado-poeta, que, ferido em batalha, conheceu Siegfried Sassoon, outro poeta, e que o encorajou a continuar escrevendo sobre a insanidade que vivenciavam.

Dessa vez, Owen lamenta as mortes em massa dos soldados, que como gado são abatidos, sem direito a funerais, ritos ou homenagens dignas.

Nesta tradução, não muito pude fazer para manter rimas perfeitas, por vezes recorrendo às rimas assonantes e, em alguns casos, aliterantes.

 

Hino à Juventude Perdida, por Wilfred Owen

Quais badaladas para aqueles que morrem como gado?
Apenas a cólera monstruosa das espingardas
Apenas a matraca rápida dos rifles
Podem anular suas orações apressadas.

Sem ofensas para eles, agora. Nem rezas, nem sinos;
Tampouco vozes de luto, salvo os coros
Os estridentes, dementes coros de cápsulas em prantos;
E cornetins cantando-os de condados distantes.

Quais velas pode-se empunhar para acelerá-los?
Não nas mãos de garotos, mas em seus olhos
Cintilarão despedidas em vislumbres santos.

A palidez de tezes femininas suas mortalhas;
Suas coroas, a ternura de mentes pacientes,
E a cada lento ocaso o final das batalhas.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Dulce et decorum est

Wilfred Owen (1893-1918) foi um poeta-soldado inglês que, frente aos horrores da Grande Guerra, vivenciados na carne, retratou, em meio às trincheiras e sarjetas, o resultado de um ataque de gás mostarda.

O poema descreve o caminho de volta de alguns soldados, logo após investirem contra as trincheiras inimigas, atravessando a Terra de Ninguém (espaço de terra, entre as duas trincheiras, onde ninguém dominava), e regressando ao merecido descanso, quando são surpreendidos por um ataque de bombas de gás.

Na última stanza, Owen muda a natureza descritiva do poema e se dirige a alguém (possivelmente a poetisa Jessie Pope, conhecida por seus poemas patrióticos de cunho recrutador; ou mesmo outro poeta-soldado, Rupert Brooke, que certa vez escreveu sobre as vantagens de lutar na guerra) para questionar a máxima latina 'dulce et decorum est pro patria mori'. A expressão vem de um poema de Horácio, e quer dizer 'é doce e adequado morrer pela pátria'. 

Wilfred Owen viria a morrer na sua última excursão à linha de frente, a apenas uma semana do armistício.

Esta é a minha tradução do poema.

Dulce et Decorum est, de Wilfred Owen

 

Curvados, como velhos pedintes sob sacas
e joelhos presos, tossindo feito bruxas, praguejamos pela lama.
Até que nos viramos, às assombrosas flamas
Avante, ao nosso repouso, e, distantes, bordejamos.
Homens marchavam adormecidos.
Muitos perderam seus coturnos;
mas manquejavam, casqueados  de sangue,
todos coxos, todos cegos, ébrios, soturnos;
surdos mesmo para os zunidos
de granadas de gás quedando atrás.

Gás! GÁS! Depressa, rapazes - um êxtase desastrado
vestindo os protetores de forma pontual,
mas alguém, ainda gritando e, desnorteado
debateu-se como um homem em chamas ou cal;
Pelas vidraças nebulosas e à verde luz, ofuscado
como sob um verde oceano, eu o vi, afogado.

Em todos os meus sonhos, ante minha visão desamparada
ele mergulha, gorgolejando, sufocando, afogando.

Se, nalgum sonho sufocante,você também marchasse
atrás de uma carroça onde o arremessamos
e contemplasse os olhos baços, contorcendo a face
como um demônio farto de pecados, o pendente semblante;
se você pudesse ouvir, a todo tranco, o sangue
subir gagarejando dos pulmões espumantes
Obscenos como o câncer, amargos, restantes
de vis e incuráveis feridas de línguas inocentes.
Companheiro, não diríeis com tanto entusiasmo
às crianças, ávidas por alguma desesperada glória
A Velha Mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Uma Carta

As folhas dos bordos já estavam quase inteiramente desintegradas. As mais vigorosas – ou talvez aquelas que brotaram tardiamente – ainda carregavam uma nuance escarlate, e cada pínula de um daqueles exemplares palmiformes ostentava a resiliência que a natureza domina, e que o homem emula em pavorosas réplicas. Mas cedo elas seriam soterradas pela fina e indolente neve que precipitava, ininterrupta, no jardim lá fora. O atraso foliar determinava o desditoso caráter da planta, onde uma altercação muito bem qualificada divisava os desafiantes: os esgalhos temporões e os ramos serôdios.

Dentro da cabana, à luz lânguida de uma luminária de mesa, a fumacinha do café ascendia diligentemente ao teto de madeira, liberando formas e contrastes, ganhando corpo, dançando um minueto etéreo; esvaecendo, porém, antes de alcançá-lo, como uma alma que passara a vida em exímia conduta, mas que na hora da extrema-unção, caíra em tentação e pecara.

Dedos jovens e femininos deslizaram na asa da xícara e ela tomou um gole. O líquido desceu com selvageria, como que acordando todas as partes dormentes de seu corpo, despertando-a dos ensaios mentais que subjugavam seus anseios.

Devia iniciar logo seu projeto.

Alcançou a caneta preta que resfolgara tempo demais durante sua entorpecida hesitação. Pegou uma folha pautada e já meio amarelada que pode achar na última gaveta da escrivaninha e começou a escrevinhar sua mensagem:


Ei, você,


Não tenho certeza se vai querer ouvir de mim depois de tanto tempo. Não estou certa sequer de por que estou escrevendo. Acho que é para finalmente admitir algo que fui covarde demais no passado para dizê-lo. Mas eu também não tinha certeza sobre onde você estava... e não quero dizer fisicamente, mas naquele limbo emocional frequente em amantes medrosos. Afinal de contas, sempre fomos tão bons em conversar sobre tudo, mas, quando o assunto era nós, conseguíamos desviá-lo como se algo pontiagudo fosse nos ferir. Chegamos, de fato, alguma vez a dizer uma coisa mais profunda para o outro do que exaltações efêmeras? Lembro-me, eu sei, que você estava sempre me elogiando, e talvez estes gestos tenham sido o seu jeito de demonstrar a sua parcela em nossa relação: novamente, fui uma tola em não desconfiar.

Você me disse certa vez que achava que nunca tinha se apaixonado de verdade, apenas pela ideia de estar apaixonado. Você dizia que, com as mulheres que cortejou, não conseguia imaginar uma vida juntos, não podia olhá-las demais nos olhos apenas pelo mesmerismo da contemplação, da idolatria; mas o jeito como você me olhava era exatamente assim.

Eu te disse que fui, apenas uma vez, apaixonada perdidamente, e que a ferida ainda não havia cicatrizado completamente, que toda vez que eu via ele era como se minha alma desse um salto à lua, deixando-me destituída de forças, e pálida feito um fantasma. Lembro-me do lapso de desapontamento em sua expressão quando lhe contei essa história, e como seu comportamento mudou dali em diante: menos jocoso, mais alheio. E eu me senti culpada – eu acho que, talvez, eu tenha percebido o que estava acontecendo.

Eu queria dizer, eu realmente queria dizer que achava que finalmente estava me curando. Eu estava sentindo mais uma vez uma pequena fagulha, bem como da vez anterior, ganhar força na mesma pilha de cinzas que o outro deixara; e conforme os dias foram passando, você, com seu jeito manso, foi atirando alguns galhos e gravetos, e a fagulha se tornou brasa, e a brasa tornou-se chama e, eventualmente, ao final do verão, eu estava ardendo como o sol ao zênite.

Nunca dissemos um para o outro o que estava acontecendo. No começo, mal nos falávamos e sequer nos abraçávamos como cumprimento e despedida. Mas conforme nossa amizade crescia, os abraços se alongavam, ocasionais beijos eram introduzidos nas bochechas, e nunca vou esquecer da vez em que você, deixando o trem inesperadamente, deu-me um beijo terno na testa e disse simplesmente: “adeus”.

Lembro-me do meu desespero: achei que nunca mais iria vê-lo, pois o gesto fora tão... novo. Mas no dia seguinte, lá estava você, jubiloso e prazenteiro, e o beijo na testa, daquele dia, fez-me perder o sono; o que queria dizer?

Houve momentos – ah, e quantos inúmeros momentos! – em que você me olhava como a quem observa uma criança brincando, um idoso gargalhando, um casal de mãos dadas. Estes momentos, eu jurava: estávamos no limite da aproximação, e eu nunca podia dizer se verdadeiramente aconteceria, algum dia. Infelizmente, não foi assim.

Tantas noites sonhei com esta cena, tantos sonhos foram interrompidos no exato momento do... contato. Então eu fantasiava, pouco antes de dormir, mas não conseguia me satisfazer com imagens embaçadas e ocasionalmente caía no sono, sua imagem sendo a última consciente. Olhando para trás, percebo que nossa curta história de verão foi uma linda jornada e me parece que toda a estação transcorreu apenas na sua presença: foi o nosso verão. Mas não posso deixar de pensar, também, que foi o verão que desperdiçamos: a estação que fizemos quase tudo certo, exceto deixar um ao outro ouvir a declaração que ambos repetíamos em nossas cabeças constantemente enquanto estávamos juntos: eu acho que estou apaixonado por você.

Bem, eu agora sei que eu te amo.

O outono transcorreu como a uma semana, tamanha a saudade que me toma. Ocupei a maior parte do tempo fora da realidade, em um mundo paralelo, em estranhos devaneios. Além do nosso verão, tomou-me todo este outono para eu ganhar coragem de escrevê-lo.

Apesar de eu ter recusado visitá-lo algumas vezes, eu sei onde você mora, sei o seu endereço e sei que continua vivendo naquela casinha verde até hoje.

O carteiro deve passar daqui a algumas horas e recolher esta carta, e você a deve ler em alguns dias.

Apenas espero que não seja tarde demais.

Com amor,

H.

 

Ela leu e releu as caleidoscópicas palavras, até a luz da lâmpada não ser mais necessária. Pequenos e tímidos raios carmesins invadiam a cabana e traziam consigo sua tépida contenda contra o ar hibernal. Na carta, algumas letras foram borradas: duas ou três lágrimas fugitivas. Quando o sol já estava mais sociável e andejava, sôfrego, pelas cercanias do firmamento, ela dobrou a carta duas, quatro vezes, introduziu-a em um envelope amassado e escreveu o endereço, mas não colocou o remetente.

Quase sem forças, levantou da cadeira e cada músculo teso de seu corpo resistia na rigidez de alguém que passara muito tempo imoto. Deslizou os lábios nas extremidades da aba do sobrescrito. Um beijo cerimonioso, que ela tanto anelara, fora dado no papel, uma combinação assimétrica entre um polímero vegetal e um tecido epitelial. Depois guardou-o de volta na última gaveta, deixou a caneta onde sempre estivera e esvaziou a xícara de café gelado na pia, antes de ir deitar e descansar durante todo o dia.

Ela precisava repousar.

No cair da noite, tinha uma carta para escrever.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Amour Secret

Je t'aime en secret.

Je pense que je t'ai aimé pendant un certain temps.

Je ne cache pas mes sentiments de peur de doute de sa correspondance.

Je ne dis pas que je t'aime parce que vous peut me aimer en retour, et cet amour peut changer.

Mais il n’est pas cet amour qui mutuellement se sentait, mais la pureté du désir non consommée, la façon respectueuse que nous traitons, les beaucoup blagues qui nous font rire.

Et parce que j'aime surtout son sourire bienheureux, pour l''instant, je t'aime en secret.

domingo, 24 de junho de 2018

"A Dream", poema de Edgar Allan Poe traduzido


Um Sonho

À visão da noite escura
Eu sonhei com o prazer vencido -
Mas um sonho desperto de vida e alvura
Deixou-me de coração partido.

Ah! O que como um sonho diurno
Para ele cujos olhos agarrados
Ao clarão envolto ao seu turno
Voltam às coisas do passado?

Aquele sonho santo - aquele sonho santo,
Enquanto todo o mundo, então censurado,
Alegrou-me como um adorável encanto
Um espírito-guia abandonado.

O que, porém, naquela luz, tão trêmula e distante,
entre noite e tempestade -
O que poderia ser mais brilhante
Na estrela solar da verdade?

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Passageira

Atualmente, ela sentava nos bancos individuais do ônibus. Espreitava através de grandes lunetas, de uso meramente decorativo, e atrás de mechas mal escovadas a escorrer como sedosa cortina, os trôpegos ingressantes da breve jornada. A escolha do assento isolado não era caso de incômodo, tampouco pragmático: desceria somente no ponto final, logo, não correria o risco de ficar presa e ter que pedir licença a pernas espaçosas que lhe trancassem a passagem. Afinal, era uma mocinha mirrada e quase todos constituíam um obstáculo desafiador.
Há alguns anos frequentava a mesma linha, de manhãzinha, subindo na primeira parada em frente à universidade, sendo uma das primeiras a ver os lugares todos vagos, e observar, com certa culpa, o carro atulhar-se, ponto a ponto, até expelir dezenas de destinos ao terminal, quarenta minutos depois. Naturalmente, gostava das janelas, ou, como batizava secretamente, "microscópio de gente". Gostava de como os passantes da calçada inflavam o tórax e ensaiavam andares de passarela quando o carro parava em estações; eles sabiam que tinham uma plateia itinerante. Além, recostar a cabeça e sentir o formigamento do vidro quando os pneus amaciavam o asfalto irregular era como uma massagem gratuita.
No princípio, não se importava em escolher os bancos duplos e ficar longe do seu instrumento vítreo de examinar as vidinhas lá fora. Sentia certa euforia quando o ônibus fazia uma de suas paragens, e rostos, alguns inéditos, outros regulares, emergiam na escadinha ao lado do motorista. Gostava de investigar um a um e decifrar-lhes os motivos enquanto trocavam dinheiro com o cobrador; tentava descobrir qual escolheria o assento ao seu lado. Porém, assim que a máquina arrancava, e a catraca cessava a sonora giratória, fixava-se para fora da janela, com olhos voltados às lâminas, mas a mente alerta ao interior, como a aumentar o suspense. O assento permanecia vazio, entretanto, até que todas as filas duplas com suas respectivas janelas fossem ocupadas. Então, os corredores eram escolhidos a contragosto. Finalmente, sempre olhando para fora, sentia a presença, o impacto, mesmo a olência, a leve lufada de alguém que se apressava a centímetros do seu ombro; muitas vezes encostavam nela, mas não se importava, pensando: quão curiosas são as oportunidades em que as pessoas se tocam!
Em locais repletos, onde a falta de espaço impele os convivas a forçadas aproximações, sentir na perna ou no braço o calor de outro ser humano é inteiramente aceitável; bem como o é, por ordem de etiqueta, encostar a bochecha em outra bochecha, enlaçar a palma em outra palma em cumprimentos cotidianos; mas quantas vezes a necessidade do toque era um desejo condenado fora das respectivas convenções!
A mudança de comportamento fora medida recente. Revezava as cadeiras unitárias desde que notou o cuidadoso escrutínio dos passageiros, à procura de assentos isolados e, quando não havia opção, a esforçada indiferença que exibiam aos seus companheiros de viagem, rapidamente sacando seus telefones, não raro acoplados a fios que lhes tampavam a audição, assim, portanto, vedando o espírito.
Em mais de três anos, sequer uma vez alguém iniciara uma conversa com ela, nem ela o fizera; temia que fosse mal interpretada ou, pior, receava apresentar-se como estorvo. Restava-lhe fantasiar ocasiões diversas em sua mente, onde um interlocutor tomava a figura de um inteligente rapaz, uma curiosa criança acompanhada de um progenitor negligente, um sábio idoso farto de causos de juventude, todos lhe dando atenção. Inúmeras vezes estas embalagens rompiam, de fato, da frente do coletivo, mas, ao atravessarem desdenhosos por ela, provavam-se destituídos de conteúdo.
Ao observar um casal de amigos, naquele dia, uma onda nostálgica lhe reavivou a memória. A menina apontava aleatoriamente para a rua e o amigo, respectivamente, fazia um comentário que engatilhava gargalhadas. Em tempo de ginásio, ela colecionara amizades como aquela: rapaz e moça, ambos em sincrônico compartilhamento de gestos, porém pechosa autenticidade de sentimentos; risadas espalhafatosas e provocações brincalhonas escondiam o subjacente anseio. A ardente necessidade de manter um ao outro próximo era disfarçada diariamente, através de elogios esporádicos e contatos intermitentes, cada um carregado de invisível declaração.
Quando um senhor de bengala subiu pela porta do meio, curvado como se inspecionasse o chão, o menino comprimiu os beiços e as pálpebras, emulando uma caricatura que disparou nova sessão de risadas da menina. Ela juntou-se a ele na imitação, e ambos seguiram amortecendo risinhos enquanto um homem de calças sujas de tinta dava seu lugar para o idoso cidadão. Fizeram nova vítima ao repararem uma obesa mulher com sacolas nas duas mãos sofrendo para não entalar na catraca estreitíssima. Sentiu inevitável pena.
Abandonou o casal a suas abafadas pilhérias e repousou a atenção no jovem cobrador de cabelos arrepiados. Ele dava instruções para um menino de compleição confusa, que vinha logo atrás da senhora obesa. Notou prontamente que o rapaz era formoso, e sua atabalhoada essência conferia-lhe charme a mais. Admirou-o mormente quando este voluntariou-se para segurar as sacolas enquanto a pesada passageira fazia um verdadeiro contorcionismo para galgar as grades de liberação.
Não havia mais assentos para eles, portanto, o rapaz teve de parar no corredor, próximo a ela. Instintivamente, ela se recolheu quando a brisa de seu movimento deslizou sobre seus antebraços. Ainda sentiu um breve perfume de adolescência. Novamente, traindo aos recém-adotados preceitos de ermitã, desejou que o moço lhe puxasse conversa. Mas o ônibus estava demais cheio, e qualquer diálogo seria ouvido por meia dúzia de almas, afora o constante ronco do motor e os ruídos dos freios desgastados que lhes forçariam a erguer a voz.
Admoestou-se por mergulhar em hipóteses quiméricas, voltando a mirar os amigos ridentes. Estavam em raro momento de paz, cada qual com a cabeça baixa, carregando uma fleuma incompatível, certamente transviados por seus aparelhos móveis. Quando o ônibus desacelerou, a menina puxou o cadarço do capuz do amigo e ambos se puseram em movimento para descer. Aos tropeços e encontrões, alcançaram a porta central, por onde havia adentrado o velho de bengala.
Foi assim que o rapaz confuso e formoso a tocou. Quando o casal se espremeu para cair na porta, ele teve de dar um passo à frente. Enquanto o fazia, olhava para trás para se certificar de que havia deixado espaço suficiente para os barulhentos passantes. Ao som das gargalhadas derradeiras dos dois, ela sentiu a pele morna das costas da mão do menino contra sua bochecha. Contudo efêmero, o toque era doce e terno, malgrado a ausência de intenção.
Ele sequer se deu conta. Ela se arrepiou e tremeu. Logo o contato se desfez e o ônibus retomou sua circular empreitada. Na mesma parada em que os amigos desceram, subiram outros tantos viajantes, e logo o rapaz teve de se apressar para o fundo do ônibus para dar lugar aos que chegavam. Quão curiosas são as oportunidades em que as pessoas se tocam!

terça-feira, 22 de abril de 2014

'Uma Pergunta', poema traduzido de Robert Frost

Minha tradução para 'A Question', de Robert Frost:
"Uma voz disse, Olhai-me nas estrelas
E dizei-me, homens terrenos, sem desmedida
Se d'alma e corpo todas as mazelas
Não foram muito a se pagar pela vida."